
Se você acha que a ligação
umbilical entre Fluminense e o tapetão vem desde as viradas de mesa iniciadas
nos anos 90, é bom saber que a prática é bem mais velha que isso.
Digamos que o mítico “Advogado do
Fluminense”, essa figura mitológica, invencível nos tribunais, capaz de tornar
inválidas as mais consolidadas e unânimes leis da humanidade, é apenas o atual
ocupante de uma linhagem centenária, iniciada em 1907.
No início do século passado, não
havia campeonatos nacionais ou internacionais de clubes, e os estaduais ainda
estavam nascendo. O Campeonato Carioca, cujo ano de início convencionou-se
pontuar em 1906, na verdade era uma liga com seis times sediados na então
Capital Federal e na vizinha Niterói. O Flamengo e o Vasco da Gama, dois dos
quatro clubes mais populares da cidade, ainda não haviam adentrado aos campos
de futebol, fazendo-o respectivamente em 1911 e 1915.
O embrião de Federação nasceu com
a Liga Metropolitana, fundada por
Fluminense, Botafogo, Bangu, Payssandu, Rio Cricket e Football Athletic (que
jogariam a primeira divisão), América, Riachuelo e Colégio Latino-Americano
(que jogariam a segunda divisão). Para separar as divisões, não foi adotado
qualquer critério objetivo, apenas a subjetividade do “critério técnico”:
considerava-se que os três times da divisão inferior não tinham qualidade
técnica para confrontar os seus para a elite, e se quisessem fazê-lo, deveriam
vencer a divisão inferior, e disputar uma partida contra o último colocado da
principal.
Ao contrário do que ocorre hoje,
não havia uma Federação Estadual ou Nacional que pudesse impor sua autoridade
sobre a Liga. Embora a Liga tivesse sido fundada após a criação da FIFA (1904),
não havia qualquer filiação da primeira à segunda.
Francis Henry Walter foi nomeado
primeiro presidente da entidade, e simultaneamente, era dirigente máximo do
Fluminense e goleiro do clube, jogando cinco das dez partidas do torneio. Só
faltava apitar.
Tente imaginar hoje, se Marco
Polo del Nero fosse simultaneamente presidente da CBF, e presidente e jogador
do Palmeiras. Se não fosse o obstáculo da idade, até poderia. Talvez a barreira
fosse as viagens ao exterior, coma iminência de prisão.
O modelo de competição foi o de
pontos corridos, com as seis equipes se enfrentando em turno e returno,
atribuindo dois pontos por vitória e um por empate. O Fluminense vence nove
jogos, perde um, faz 52 gols, leva seis, e se torna o primeiro campeão.
Na segundona, América e
Riachuelo, acabam empatados em número de pontos, criando um entrave: o
regulamento não previa critérios de desempate. Não havia a possibilidade de
declarar os dois clubes campeões, já que era necessário apontar apenas um para
disputar o jogo que valeria o acesso à divisão principal contra o Football
Athletic, lanterninha da primeirona. Cavalheiramente, as duas direções
decidiram por um jogo desempate, vencido pelo Riachuelo, que mais adiante,
vence o Football Athletic, e garante a sua vaga na elite da Liga.
Atenção a essa ausência de critério de desempate: isso vai ar dor de
cabeça mais adiante.
Em 1907, a instituição,
rebatizada de Liga Metropolitana de
Sports Athleticos, promoveria a segunda edição do torneio, excluindo o
Bangu, por acusações e práticas profissionalizantes (proibidas na época). O Rio
Cricket se afasta voluntariamente da entidade, e o Riachuelo, mesmo
conquistando a vaga legalmente, é impedido de atuar, sob alegação de
incapacidade técnica. Assim, apenas Fluminense, Botafogo e Payssandu vão à
segunda edição como remanescentes da primeira, acrescidos do novato
Internacional. Todos os jogos aconteceram no field do Fluminense, já que o do Botafogo estava em construção, e
os demais times não possuíam cancha para as disputas.
Botafogo e Fluminense despontavam
como favoritos ao título quando o alvinegro enfrentaria o Internacional, que só
compareceu ao jogo com cinco jogadores, dois a menos que o mínimo exigido pela
regra. O Botafogo foi declarado vencedor, mas sem nenhum gol computado à classificação,
e o Internacional foi excluído do campeonato por punição prevista em
regulamento. O seu jogo seguinte, justo contra o Fluminense, foi cancelado, com
a vitória deste por W.O., também sem acréscimo de gols à classificação.
Fluminense e Botafogo terminariam
empatados em número de pontos, o que abriria um entrave na definição do
campeão. Abriria.
Quatro dias antes da do início da
competição, Fluminense, Payssandu e o inativo Rio Cricket aprovaram uma
resolução, com voto contrário de Botafogo e Internacional, inserindo um adendo
na forma de disputa, transformando o saldo de gols em critério de desempate.
Qui ficam duas perguntas:
O regulamento de um torneio ou estatuto de uma entidade pode ser
modificado sem a anuência de todos os participantes?
O Rio Cricket poderia ter decidido pela modificação do regulamento de
uma competição da qual não participaria?
Com base na Segunda Divisão do
ano anterior como precedente, o Botafogo evocou a nulidade da ata anterior ao
torneio, e pedia o jogo extra. O Fluminense, com melhor saldo de gols (10x5),
afirmava a validade da modificação.
Hoje, o caso poderia ser decidido
pelo STJD, esse recanto de pavões que ao verem a lâmpada de uma geladeira
acesa, já pensam se tratar de uma câmera ligada para exibir seus momentos de
subcelebridades. Mas, na época, essa instituição não existia, e não se recorria
à Justiça Comum para dirimir conflitos. De fato, a liga não proclamou ninguém
campeão, já que foi dissolvida no mesmo ano para dar lugar à outra entidade que
organizaria a competição do ano seguinte. Os brigões Fluminense e Botafogo
levaram o Payssandu e o inativo Rio Cricket para a nova entidade.
O Fluminense se declara campeão,
e o Botafogo também, embora não o faça enfaticamente. Na década seguinte, já na
Liga Metropolitana de Desportos
Terrestres, o clube das Laranjeiras sinalizou um acordo de divisão de
título para o rival, que recusou. Com aprovação da maioria dos membros da LMDT,
a Taça Colombo, que tinha grafada o nome dos campeões dos
torneios até então, receberia o nome do Fluminense no espaço reservado á
primeira competição.
Historicamente, aceitou-se o
tricolor como o primeiro campeão carioca, embora o Botafogo nunca deixasse de
reivindicar a honraria. Em 1943, Lamartine Babo compôs o hino do alvinegro com
o início “Botafogo, Botafogo, campeão/
Desde 1910...”. É bom dizer que a composição de Lamartine não era a versão
oficial do clube, embora tenha inegavelmente caído no gosto popular e entoada à
exaustão nas arquibancadas.
O caso esteve adormecido durante
décadas, e caminhava para o esquecimento, quando por motivos não totalmente
esclarecidos, o Fluminense solicitou junto à atual Federação do Rio de Janeiro
a oficialização de seu título no ano contestado. Embora a LMDT apontasse o
Fluminense como detentor do troféu, a FERJ aceita o pedido do clube. O
invencível Jurídico do Tricolor, não aceitava que seu primeiro título viesse
acompanhado de um asterisco, e compraria uma briga para apagar esse sinal
gráfico de sua galeria.
Irritado, o Botafogo comprou a
briga e foi á Justiça comum, iniciando uma briga que poderia ser infinita.
Alegava que a Liga foi extinta antes que alguma decisão fosse tomada e que a
LMDT não reconheceu o Fluminense como vencedor (apenas pôs o seu nome no
troféu).
Em 1996, para dar fim à briga,
outro mito dos bastidores, o Presidente da Federação, Eduardo Vianna (o Caixa D’Água), através de uma canetada,
decide pela opção salomônica de dividir o título entre os dois brigões.
Pena que ninguém da época está
vivo para a cerimônia de premiação.
Sei que pra tentar dar um up nesse blog fraco a tentativa de falar do Fluminense é válida. Afinal, o senso comum adora crucificar o clube, mesmo não sendo o causador das viradas de mesa a que leva a culpa. Mas já que se propôs a escrever esse texto, poderia ao menos fazê-lo de forma correta. Em primeiro lugar, o primeiro título do Fluminense foi em 1906 e não em 1907. Quem se propõe a escrever texto histórico deveria ao menos conhecer a história né? Além disso, como vc mesmo disse no texto, a maioria dos clubes que estavam na "federação" da época aprovaram o critério de desempate (que, diga-se, era mais justo), quem não aceitou foi o botafogo e aí o imbróglio se iniciou. Logo, quem foi ao "tapetão" foi o botafogo. Além disso, o Fluminense sempre propôs, de maneira diplomática, a divisão do título, o botafogo que nunca aceitou, foi a justiça, e perdeu. O caso lembra muito a confusão que gerou a copa João Havelanche de 1999. O botafogo tomou de 6 x 1 em campo pro São Paulo, entrou no STJD, ganhou os pontos do jogo por causa do Sandro Hiroshi, enquanto o Gama fez o mesmo e não ganhou os pontos. Conclusão: Gama rebaixado mesmo fazendo mais pontos em campo e toda a questão foi pra justiça por culpa do botafogo, mas quem levou a fama foi o Fluminense, que até abril de 2000 achava que jogaria a série B normalmente (e deveria jogar contra o próprio botafogo). Enfim, seu blog é muito fraco, e se vai começar a escrever mentiras pra ganhar visualizações, está começando de maneira errada.
ResponderExcluirOpa, o estagiário do advogado do Fluminense chegou!
ExcluirQuanto ao título de 1906, releia o texto. Sua pressa em criticar te atrapalhou a leitura.
Vamos enumerar:
1. O ano 1907 foi o primeiro entrevero nos bastidores, não o início das competições. Releia o texto.
2. O estatuto da Liga era omisso quanto à necessidade numérica de clubes para a mudança de regulamento. O Fluminense entendia que era preciso a maioria, e o Botafogo entendia que era preciso a totalidade. Espero que entenda. Fica difícil explicar através de desenho por aqui.
3. O Fluminense se proclama campeão, e resolve "diplomaticamente" abrir mão do título? Que coisa estranha, não?
4. O Botafogo não foi à Justiça, pelo menos não antes de o Fluminense esquecer esse negócio de divisão da taça.
5. A trapaça do Botafogo vestiu muito bem o Fluminense. Ou você acredita que, candidamente, o clube das Laranjeiras foi pego de surpresa diante doo honroso convite de jogar a João Havelange? Pensa que engana quem, rapaz?
Se meu blog é fraco, seus argumentos são putrefatos. Chamar os outros de mentirosos usando a mentira como arma é vergonhoso.
Em tempo: Botafogo, como todo nome próprio, se inicia com letra maiúscula. Seu clubismo não pode ofender a boa escrita do idioma.
E antes que me esqueça, pague a Série B.
Gustavo Meirelles, meu caro, este texto é apenas informativo e, não se trata de briga entre torcedores de clubes rivais.
ExcluirNão se pode apagar a história somente porque não concordamos com ela, afinal os casos estão documentado no próprio clube. Eu sou tricolor e em momento algum me incomodei com o post, bem como ironia ou jargões.
Acredito que, caso esse artigo fosse escrito por um torcedor de um clube rival, entenderia como sarcasmo, porém não é o caso do autor.
Da mesma forma como foi publicado essa questão em relação ao Fluminense, também a qualquer momento ele (o autor) pode escrever sobre: Botafogo, Flamengo ou Vasco.
Quando respondemos apenas porque não gostamos de certos assuntos, não diminuímos o acontecido e, querer provar que não foi bem assim não significa que não aconteceu, porém não foi dessa forma que conduziu sua resposta,apenas se irritou com a publicação e, não interpretou ao certo algumas partes.
Fique tranquilo quando às postagens, não gere polêmica, caso houver erros, seria de bom tom ajudar ao blog para não cometer falhas, já que penso que seja muito interessante informar e informar bem,mesmo que isso venha falar do clube para qual eu torço.
Um abraço!
O autor começa já mostrando parcialidade e pouco conhecimento futebolístico ao utilizar jargões e poucos argumentos já no início do péssimo texto.
ResponderExcluirMas vamos lá, vamos simplificar as coisas. Primeiro: Botafogo foi contra a mudança da regra de desempate. No entanto, mesmo discordando, participou do referido torneio. Participando do torneio, automaticamente ele estará jogando de acordo com as regras estabelecidas. Não é simples? A questão já não está mais no fato dele não ter gostado da regra ou do Rio Cricket ter votado mesmo sem participar e sim do Botafogo ter aceitado jogar CONHECENDO a regra do campeonato. Não custa lembrar que antes do campeonato todos tinham o saldo de 0 gol, não é mesmo?
Vamos seguir. Você diz que o Fluminense propôs posteriormente dividir o título mas que o alvinegro recusou. Só que mais para o final do texto você diz, ironicamente, que o invencível jurídico do clube não queria dividir. Não está incoerente? No argumento parece ter muito clubismo e 0 de pesquisa.
Mas vamos seguir novamente. Você chama o Fluminense de clube do tapetão, mas de quem era o título? Do Fluminense! Como você mesmo diz, "historicamente, aceitou-se o tricolor como primeiro campeão".
Não custa lembrar que o campeonato começou em 1906, logo, o primeiro campeão foi de fato o Fluminense. Já que o texto se refere ao ocorrido em 1907, fica evidente que quem buscou o tapetão (até mesmo porquê não faria sentido um clube entrar no tribunal para ter algo que já tem) não foi o Tricolor e sim é Alvinegro.
Por fim, não custa lembrar alguns pontos:
Eduardo Vianna era desafeto histórico do Fluminense, curioso ter dividido o título, não é mesmo?
Nos confrontos diretos, o Fluminense teve melhor saldo que o Botafogo(5 a 4).
Vamos lá, meu caro imparcial:
ExcluirEsperava que você entendesse jargões de forma irônica. não se trata de um texto acadêmico, o que permite certas liberdades. Sinto se ofendi seu club... opa, você não é clubista, não é mesmo?
Uma coisa é discordar do regulamento, outra é discordar da alteração do regulamento. Entendeu agora?
Quanto à divisão do título: em um primeiro momento, o clube se proclamou campeão, para na década seguinte, propor a divisão, e somente sete décadas depois, requerer somente para si o título. Isso é claro no texto. Reclame de incoerência lá nas Laranjeiras.
Para efeito de pesquisa, te recomendo a leitura deduas obras: "Memória Social dos Esportes", organizada por Ricardo Pinto dos Santos e Francisco Teixeira; e "Football mania", de Ricardo Pintos dos Santos. Vá estudar antes de escrever besteiras.
Não escrevi que o Fluminense não foi campeão legítimo em 1906. Releia o texto de novo!
Te recomendo de novo a leitura, só que do título. Eu escrevi em algum momento que o Fluminense recorreu ao tapetão? Mas, como o clubista sou eu...
Eduardo Vianna era desafeto do Fluminense, assim como era do Botafogo. procure investigar o contexto da época, e deixe de pensar que o dirigente passou todos os seus anos na cadeira da FERJ disposto a avacalhar a vida do Fluminense.
Agora, se o presidente da FERJ era tão anti-tricolor assim, qual o motivo que o levou a apoiar as viradas de mesa de 1997 e 2000, que beneficiaram o Fluminense.
E também quando lançar dados, cheque-os antes de postar mentiras: a diferença no saldo não foi 5 a 4, foi 10 a 5. E não foi nos confrontos diretos, foi em todos os confrontos da competição.
Leia sem cegueira, criatura...