
AS TRADIÇÕES INVENTADAS
Se você já se atentou em algum momento sobre a História do
Futebol, deve ter ouvido falar sobre o pioneirismo do Vasco na luta contra o
racismo, correto? Mas, será que o clube da colônia portuguesa realmente assumiu
a vanguarda na democratização racial do esporte bretão, ou isso teria sido uma
espécie de tradição inventada?
Para quem não teve muito contato com o termo, ele é bastante
usado nas Ciências Humanas, principalmente quando se tem como referência o
historiador britânico Eric Hobbsbawm, que define o termo:
O termo “tradição
inventada” é usado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as
'tradições' realmente inventadas, construídas e formalmente
institucionalizadas; quanto as que surgiram de maneira mais difícil de
localizar num período limitado e de determinado tempo – às vezes coisa de
poucos anos apenas – e se estabeleceram com enorme rapidez.
Resumidamente, os anos e o discurso comum se encarregaram de
difundir que o Vasco da Gama foi o primeiro clube da então Capital Federal a
oportunizar um lugar para negros em seus quadros, enfrentando a estrutura
racista do futebol de sua época, e que seu heroico título de 1923 fora um “tapa
na cara” de seus rivais preconceituosos. Os episódios seguintes, como a
tentativa de dirigentes de proibir os atletas “de cor” de disputarem
competições, a insistência do clube e mais adiante, a construção do Estádio de
São Januário, seriam continuações dessa saga heroica. Seria, portanto, o Vasco,
o verdadeiro clube do povo?
Vamos a alguns furos nessa saga:
O também elitista Botafogo fizera o mesmo dois anos depois,
sob protestos de seus pares de Fluminense, Payssandu e Rio Cricket, que
forçaram os alvinegros a cancelarem as inscrições. Em 1909, a Liga proibiu que
“atletas de cor” fossem inscritos em suas competições.
Possivelmente, o caso mais emblemático tenha sido o de
Carlos Alberto, do Fluminense, que para disfarçar a cor de sua pele, se
maquiava com pó de arroz antes dos jogos. Obviamente, o recursos de perdia com
o andamento do jogo, visibilizando a pele negra do jogador. O termo “pó de
arroz” virou troça de rivais para a torcida do Fluminense, que décadas depois,
incorporou o apelido. Carlos Alberto mais adiante também atuou pelo América,
junto com Manteiga. O bom desempenho do time de Campos Salles gerou protesto de
rivais.
Esse é um mote de discussão: negros e mestiços já atuavam em
diversos torneios contra os times de endinheirados, mas sem oferecer muita
resistência. Andarahy, Mangueira e Vila Isabel, times de subúrbio,
frequentemente escalavam atletas de origem humilde, mas seu desempenho em campo
não era o suficiente para causar incômodo. Os protestos só aconteciam, dentro
de um cínico racismo, claro, se o desempenho em campo fosse o suficiente para
ameaçar sua hegemonia.
Para voltar à tradição inventada, vale lembrar que El Tigre Friedenrich, a quem se atribui
mais gols que Pelé já havia atuado pelo Flamengo em 1917. O senso comum afirma
que Fried era filho de um alemão com
uma lavadeira negra, mas na verdade seu sangue germânico derivava de seu avô, e
sua mãe era uma professora mestiça.
E QUANDO O VASCO ENTRA NESSA HISTÓRIA?
O Clube de Regatas Vasco da Gama foi fundado em 1898 pela
colônia portuguesa, quando das comemorações do quaro centenário da expedição de
seus patrícios às Índias por via marítima. Assim como o Flamengo, fundado três anos
antes, o clube luso se dedicava primordialmente às regatas (o nome deixa
claro), e só aderiria ao futebol perto de completar a segunda década de vida.
Em 1915, inspirado pela visita de um combinado de jogadores portugueses ao Rio,
incorporou os jogadores do Centro Esportivo Português, do Lusitânia e do
Lusitano, o penúltimo, mais importante, embora restrito à portugueses, para
estrear no ano seguinte nas competições oficiais.
A sua estreia, na Terceira Divisão da Liga não foi nada
animadora: termina na lanterna (não foi rebaixado porque não havia Quarta
Divisão), como apenas dois pontos, em um torneio jogado contra Icarahy
(Niteroí), Brasil (Praia Vermelha, Urca), Parc Royal (Centro), Palladino (Vila
Isabel) e River São Bento (Centro). A campanha, requintada com crueldade,
incluiu uma goleada de 10 a 1 para o Paladino e um WO diante do Brasil. Uma
vitória, nove derrotas, 10 gols marcados e 39 sofridos. Assim começava a
trajetória dos cruz-maltinos no futebol.
Mas, a cartolagem tinha suas generosidades: a Liga foi
reformulada no ano seguinte, e a Terceira Divisão foi abolida, fazendo com que
o Vasco subisse à Segundona, e por lá perambulando até 1921, somente com
jogadores da colônia portuguesa.
Antes de afirmar que o Vasco praticava xenofobia, vale lembrar
que em um ato raro, o clube elegera em 1904, um presidente negro, Cândito José
de Araújo, o Candinho, de linhagem
portuguesa apenas paterna, e mulato.
1922 foi o pulo do gato para o clube, quando rompeu a
barreira exclusivista para recrutar jogadores de mais qualidade, e de classes
menos favorecidas. O clube buscou atletas na periferia, e amparados por
comerciantes portugueses, na sua maioria pequenos e médios proprietários,
recebiam empregos de fachada, ou com trabalho reduzido, para que pudessem
treinar e se preparar para os jogos.
Burlando o amadorismo da época, recebiam
pagamentos (por vezes, “bichos” em espécie) ou outros mimos de dirigentes. Mas,
era apenas o vencedor da Segundona, que ainda não incomodava os grandes.
Mas, veio o ano seguinte, e os “Camisas Negras” (o uniforme
não possuía ainda a faixa diagonal) foram arrasadores: 12 vitórias, um empate e
uma derrota, 32 gols marcados e 19 sofridos. Estava aí delineado o marco
histórico da tradição inventada.
Os clubes mais tradicionais exigiram o afastamento dos doze
jogadores “profissionais” (justo aqueles que eram negros, comerciários e
operários). O triunfo dos Camisas Negras
provocou uma cisão no Campeonato Carioca. Além do torneio organizado pela Liga
Metropolitana de Desportos Terrestres, o grupo de clubes aristocráticos fundou
a Associação Metropolitana de Esportes Athléticos, com seu próprio campeonato.
A acusação da AMEA era a de que o Vasco incentivava o profissionalismo ao
integrar jogadores de classes inferiores e pagar prêmios pelos resultados
positivos. A entidade queria que o clube demitisse 12 atletas pobres, a maioria
negros, o que foi recusado pelo presidente José Augusto Prestes, que emitiu uma
carta, chamada de “resposta histórica” à Arnaldo Guinle, presidente da
instituição:
As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião
de ontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente
preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama em tal situação de
inferioridade que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência
do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta
de grande número dos nossos associados.
Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e
a forma como será exercido o direito de discussão e voto, e as futuras
classificações, obriga-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas
resoluções.
Quanto a condição de eliminarmos doze (12) jogadores das nossas
equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama,
não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a
investigação das posições sociais desses nossos con-sócios, investigações
levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
(...)
São esses doze jogadores jovens quase todos brasileiros no
começo de sua carreira, e o ato público que os pode macular nunca será
praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu nem sob o
pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias.
Nestes termos, sentimos ter de comunicar a V. Exa. que
desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V. Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de
quem tem a honra de se subscrever de V. Exa. Att. Obrigado.
Dr. José Augusto Prestes
Presidente
Sem o Vasco, a AMEA
teve o Fluminense como campeão, enquanto o Vasco fez uma campanha demolidora da
LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres): 14 jogos, todos vencidos, 40
gols marcados, nove sofridos.
Se a AMEA não sentia falta dos “amadores” do Vasco, pelo
menos a ausência do rico dinheirinho da colônia portuguesa nas bilheterias doía
em seus cofres, isso sem contar que a tentativa de isolar o Vasco não surtiu
efeito, já que os vascaínos se não mantiveram consigo os clubes mais fortes na
sua Liga, pelo menos disputaram um campeonato com bom número de equipes. Mas,
também é fato que para o clube português que a vitória na LMDT foi fácil
demais.
E para 1925, o Vasco se propôs entrar na Liga dos
endinheirados, e aceitou cumprir duas exigências: que seus jogadores fossem
todos alfabetizados, e que tivesse um campo de jogo, já que o da Rua Morais e
Silva só servia para treinamentos. A primeira parte foi resolvida com a rápida
alfabetização dos jogadores que não o eram, e com a cessão do campo do Andarahy
para seus jogos. E para que não pairasse dúvidas para o cumprimento desta
exigência, foi erguido em um ano apenas, o Estádio de São Januário, o maior do
Brasil até a inauguração do Pacaembu, e o maior do Rio até o Maracanã,
construído no terreno que um século antes, foi dado como presente pelo
Imperador D. Pedro I para sua mais famosa amante, a Marquesa de Santos.
A RELEITURA DA HISTÓRIA

É fato que a inserção e aceitação do negro no futebol foi
romantizada com o passar dos anos, o qu
e não invalida o papel do Vasco da Gama no
processo. A leitura de O Negro no Futebol
Brasileiro, de Mário Filho dá contornos épicos tanto para os atores
coletivos como para a ação do clube. Concebido a partir de sua experiência
jornalística, o autor transforma os causos
que ouviu ou buscou em uma primorosa obra, que é referência para a
Historiografia do esporte. O “NFB” se não é incontestável ou definitivo, pelo
menos é indispensável.
Mas, há que se observar com cuidado essa romantização:
conforme escrevi, fica claro que o Vasco não foi o primeiro clube a abrir as
suas portas para o negro, e mesmo quando o fez, fez com ressalvas, como a de
que os atletas de origem humilde poderiam envergar suas cores em campo, mas não
poderiam frequentar a sua sede social. Obviamente, a padronização não vai
alardear isso.
Redesenhar a trajetória dos fatos pode aparecer politicamente
incorreto, mas uma releitura deixa claro que as coisas não ocorreram como o
heroísmo afirma. Fica claro que com o passar dos anos, as passagens foram
adaptadas para que se criasse uma dicotomia entre opressores e oprimidos, tal
como ocorre em uma obra comum. Também fica claro que o clube se apropria de
superdimensionamento de seu papel para criar uma identidade, ou idealizar para
as atuais e futuras gerações os seus feitos.
Não se deve, no entanto, minimizar o contexto de racismo do
período: o Brasil abolira por Direito a escravidão, mas não conseguira extirpar
o racismo de suas entranhas. Mas, dentro do contexto do futebol, há que se
juntar à questão racial, também a discussão acerca do amadorismo, que se
estenderia até os anos 30, quando da oficialização do profissionalismo pela
intervenção estatal no esporte, já na Era Vargas.
Antes de derrubar mitos do futebol, o pesquisador também deve
ter em mente que eles fazem parte de seu modus
vivendi. Afinal, dentre os sentimentos de um torcedor, a razão
é um dos menos aguçados.

Muito bom esse texto. Fica evidenciado que, o Vasco, não fora o pioneiro, bem como, quando o fizera ainda houve restrições/segregação ao ponto de não poderem frequentar sua sede social. Não sei se talvez, por pressão de uma sociedade/oligarquia que, ainda nos momentos atuais são preconceituosas, não tanto quanto antes, mas que deveria não existir mais este tipo de conduta, de qualquer forma, foi um grande avanço, pena com restrições.
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