terça-feira, 21 de agosto de 2018

O PIONEIRISMO DO VASCO NA LUTA CONTRA O RACISMO NO FUTEBOL: UMA HISTÓRIA QUE NÃO É BEM ASSIM COMO FOI CONTADA

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AS TRADIÇÕES INVENTADAS

Se você já se atentou em algum momento sobre a História do Futebol, deve ter ouvido falar sobre o pioneirismo do Vasco na luta contra o racismo, correto? Mas, será que o clube da colônia portuguesa realmente assumiu a vanguarda na democratização racial do esporte bretão, ou isso teria sido uma espécie de tradição inventada?

Para quem não teve muito contato com o termo, ele é bastante usado nas Ciências Humanas, principalmente quando se tem como referência o historiador britânico Eric Hobbsbawm, que define o termo:

O termo “tradição inventada” é usado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as 'tradições' realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas; quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e de determinado tempo – às vezes coisa de poucos anos apenas – e se estabeleceram com enorme rapidez.

Resumidamente, os anos e o discurso comum se encarregaram de difundir que o Vasco da Gama foi o primeiro clube da então Capital Federal a oportunizar um lugar para negros em seus quadros, enfrentando a estrutura racista do futebol de sua época, e que seu heroico título de 1923 fora um “tapa na cara” de seus rivais preconceituosos. Os episódios seguintes, como a tentativa de dirigentes de proibir os atletas “de cor” de disputarem competições, a insistência do clube e mais adiante, a construção do Estádio de São Januário, seriam continuações dessa saga heroica. Seria, portanto, o Vasco, o verdadeiro clube do povo?

Vamos a alguns furos nessa saga:

O futebol, no início do Século passado, já não era mais exclusividade de altas rodas da sociedade, nem dos sportsmen que arrancavam suspiros de donzelas nas plateias. Antes mesmo que fosse organizado um torneio regular, o Bangu Athletic Club, clube criado por ingleses na periferia da cidade, já encaixava os operários da fábrica criada com capital estrangeiro em sua equipe. O tecelão negro Francisco Carregal já perfilava em seus quadros em 1905.

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O também elitista Botafogo fizera o mesmo dois anos depois, sob protestos de seus pares de Fluminense, Payssandu e Rio Cricket, que forçaram os alvinegros a cancelarem as inscrições. Em 1909, a Liga proibiu que “atletas de cor” fossem inscritos em suas competições.

Possivelmente, o caso mais emblemático tenha sido o de Carlos Alberto, do Fluminense, que para disfarçar a cor de sua pele, se maquiava com pó de arroz antes dos jogos. Obviamente, o recursos de perdia com o andamento do jogo, visibilizando a pele negra do jogador. O termo “pó de arroz” virou troça de rivais para a torcida do Fluminense, que décadas depois, incorporou o apelido. Carlos Alberto mais adiante também atuou pelo América, junto com Manteiga. O bom desempenho do time de Campos Salles gerou protesto de rivais.  

Esse é um mote de discussão: negros e mestiços já atuavam em diversos torneios contra os times de endinheirados, mas sem oferecer muita resistência. Andarahy, Mangueira e Vila Isabel, times de subúrbio, frequentemente escalavam atletas de origem humilde, mas seu desempenho em campo não era o suficiente para causar incômodo. Os protestos só aconteciam, dentro de um cínico racismo, claro, se o desempenho em campo fosse o suficiente para ameaçar sua hegemonia.

Para voltar à tradição inventada, vale lembrar que El Tigre Friedenrich, a quem se atribui mais gols que Pelé já havia atuado pelo Flamengo em 1917. O senso comum afirma que Fried era filho de um alemão com uma lavadeira negra, mas na verdade seu sangue germânico derivava de seu avô, e sua mãe era uma professora mestiça.

E QUANDO O VASCO ENTRA NESSA HISTÓRIA?

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O Clube de Regatas Vasco da Gama foi fundado em 1898 pela colônia portuguesa, quando das comemorações do quaro centenário da expedição de seus patrícios às Índias por via marítima. Assim como o Flamengo, fundado três anos antes, o clube luso se dedicava primordialmente às regatas (o nome deixa claro), e só aderiria ao futebol perto de completar a segunda década de vida. Em 1915, inspirado pela visita de um combinado de jogadores portugueses ao Rio, incorporou os jogadores do Centro Esportivo Português, do Lusitânia e do Lusitano, o penúltimo, mais importante, embora restrito à portugueses, para estrear no ano seguinte nas competições oficiais.

A sua estreia, na Terceira Divisão da Liga não foi nada animadora: termina na lanterna (não foi rebaixado porque não havia Quarta Divisão), como apenas dois pontos, em um torneio jogado contra Icarahy (Niteroí), Brasil (Praia Vermelha, Urca), Parc Royal (Centro), Palladino (Vila Isabel) e River São Bento (Centro). A campanha, requintada com crueldade, incluiu uma goleada de 10 a 1 para o Paladino e um WO diante do Brasil. Uma vitória, nove derrotas, 10 gols marcados e 39 sofridos. Assim começava a trajetória dos cruz-maltinos no futebol.

Mas, a cartolagem tinha suas generosidades: a Liga foi reformulada no ano seguinte, e a Terceira Divisão foi abolida, fazendo com que o Vasco subisse à Segundona, e por lá perambulando até 1921, somente com jogadores da colônia portuguesa.

Antes de afirmar que o Vasco praticava xenofobia, vale lembrar que em um ato raro, o clube elegera em 1904, um presidente negro, Cândito José de Araújo, o Candinho, de linhagem portuguesa apenas paterna, e mulato.

1922 foi o pulo do gato para o clube, quando rompeu a barreira exclusivista para recrutar jogadores de mais qualidade, e de classes menos favorecidas. O clube buscou atletas na periferia, e amparados por comerciantes portugueses, na sua maioria pequenos e médios proprietários, recebiam empregos de fachada, ou com trabalho reduzido, para que pudessem treinar e se preparar para os jogos. 

Burlando o amadorismo da época, recebiam pagamentos (por vezes, “bichos” em espécie) ou outros mimos de dirigentes. Mas, era apenas o vencedor da Segundona, que ainda não incomodava os grandes.

Mas, veio o ano seguinte, e os “Camisas Negras” (o uniforme não possuía ainda a faixa diagonal) foram arrasadores: 12 vitórias, um empate e uma derrota, 32 gols marcados e 19 sofridos. Estava aí delineado o marco histórico da tradição inventada.

Os clubes mais tradicionais exigiram o afastamento dos doze jogadores “profissionais” (justo aqueles que eram negros, comerciários e operários). O triunfo dos Camisas Negras provocou uma cisão no Campeonato Carioca. Além do torneio organizado pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, o grupo de clubes aristocráticos fundou a Associação Metropolitana de Esportes Athléticos, com seu próprio campeonato. A acusação da AMEA era a de que o Vasco incentivava o profissionalismo ao integrar jogadores de classes inferiores e pagar prêmios pelos resultados positivos. A entidade queria que o clube demitisse 12 atletas pobres, a maioria negros, o que foi recusado pelo presidente José Augusto Prestes, que emitiu uma carta, chamada de “resposta histórica” à Arnaldo Guinle, presidente da instituição:

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama em tal situação de inferioridade que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.
Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma como será exercido o direito de discussão e voto, e as futuras classificações, obriga-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto a condição de eliminarmos doze (12) jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama, não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos con-sócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
(...)
São esses doze jogadores jovens quase todos brasileiros no começo de sua carreira, e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu nem sob o pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias.
Nestes termos, sentimos ter de comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V. Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever de V. Exa. Att. Obrigado.
Dr. José Augusto Prestes
Presidente
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 Sem o Vasco, a AMEA teve o Fluminense como campeão, enquanto o Vasco fez uma campanha demolidora da LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres): 14 jogos, todos vencidos, 40 gols marcados, nove sofridos.

Se a AMEA não sentia falta dos “amadores” do Vasco, pelo menos a ausência do rico dinheirinho da colônia portuguesa nas bilheterias doía em seus cofres, isso sem contar que a tentativa de isolar o Vasco não surtiu efeito, já que os vascaínos se não mantiveram consigo os clubes mais fortes na sua Liga, pelo menos disputaram um campeonato com bom número de equipes. Mas, também é fato que para o clube português que a vitória na LMDT foi fácil demais.

E para 1925, o Vasco se propôs entrar na Liga dos endinheirados, e aceitou cumprir duas exigências: que seus jogadores fossem todos alfabetizados, e que tivesse um campo de jogo, já que o da Rua Morais e Silva só servia para treinamentos. A primeira parte foi resolvida com a rápida alfabetização dos jogadores que não o eram, e com a cessão do campo do Andarahy para seus jogos. E para que não pairasse dúvidas para o cumprimento desta exigência, foi erguido em um ano apenas, o Estádio de São Januário, o maior do Brasil até a inauguração do Pacaembu, e o maior do Rio até o Maracanã, construído no terreno que um século antes, foi dado como presente pelo Imperador D. Pedro I para sua mais famosa amante, a Marquesa de Santos.

A RELEITURA DA HISTÓRIA

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É fato que a inserção e aceitação do negro no futebol foi romantizada com o passar dos anos, o qu
e não invalida o papel do Vasco da Gama no processo. A leitura de O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho dá contornos épicos tanto para os atores coletivos como para a ação do clube. Concebido a partir de sua experiência jornalística, o autor transforma os causos que ouviu ou buscou em uma primorosa obra, que é referência para a Historiografia do esporte. O “NFB” se não é incontestável ou definitivo, pelo menos é indispensável.

Mas, há que se observar com cuidado essa romantização: conforme escrevi, fica claro que o Vasco não foi o primeiro clube a abrir as suas portas para o negro, e mesmo quando o fez, fez com ressalvas, como a de que os atletas de origem humilde poderiam envergar suas cores em campo, mas não poderiam frequentar a sua sede social. Obviamente, a padronização não vai alardear isso.

Redesenhar a trajetória dos fatos pode aparecer politicamente incorreto, mas uma releitura deixa claro que as coisas não ocorreram como o heroísmo afirma. Fica claro que com o passar dos anos, as passagens foram adaptadas para que se criasse uma dicotomia entre opressores e oprimidos, tal como ocorre em uma obra comum. Também fica claro que o clube se apropria de superdimensionamento de seu papel para criar uma identidade, ou idealizar para as atuais e futuras gerações os seus feitos.

Não se deve, no entanto, minimizar o contexto de racismo do período: o Brasil abolira por Direito a escravidão, mas não conseguira extirpar o racismo de suas entranhas. Mas, dentro do contexto do futebol, há que se juntar à questão racial, também a discussão acerca do amadorismo, que se estenderia até os anos 30, quando da oficialização do profissionalismo pela intervenção estatal no esporte, já na Era Vargas.

Antes de derrubar mitos do futebol, o pesquisador também deve ter em mente que eles fazem parte de seu modus vivendi.  Afinal,  dentre os sentimentos de um torcedor, a razão é um dos menos aguçados. 


terça-feira, 7 de agosto de 2018

O PRIMEIRO TAPETÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO. E ADIVINHEM QUEM ESTÁ ENVOLVIDO? ELE MESMO, O FLUMINENSE!

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Se você acha que a ligação umbilical entre Fluminense e o tapetão vem desde as viradas de mesa iniciadas nos anos 90, é bom saber que a prática é bem mais velha que isso.

Digamos que o mítico “Advogado do Fluminense”, essa figura mitológica, invencível nos tribunais, capaz de tornar inválidas as mais consolidadas e unânimes leis da humanidade, é apenas o atual ocupante de uma linhagem centenária, iniciada em 1907.

No início do século passado, não havia campeonatos nacionais ou internacionais de clubes, e os estaduais ainda estavam nascendo. O Campeonato Carioca, cujo ano de início convencionou-se pontuar em 1906, na verdade era uma liga com seis times sediados na então Capital Federal e na vizinha Niterói. O Flamengo e o Vasco da Gama, dois dos quatro clubes mais populares da cidade, ainda não haviam adentrado aos campos de futebol, fazendo-o respectivamente em 1911 e 1915.

O embrião de Federação nasceu com a Liga Metropolitana, fundada por Fluminense, Botafogo, Bangu, Payssandu, Rio Cricket e Football Athletic (que jogariam a primeira divisão), América, Riachuelo e Colégio Latino-Americano (que jogariam a segunda divisão). Para separar as divisões, não foi adotado qualquer critério objetivo, apenas a subjetividade do “critério técnico”: considerava-se que os três times da divisão inferior não tinham qualidade técnica para confrontar os seus para a elite, e se quisessem fazê-lo, deveriam vencer a divisão inferior, e disputar uma partida contra o último colocado da principal.

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Ao contrário do que ocorre hoje, não havia uma Federação Estadual ou Nacional que pudesse impor sua autoridade sobre a Liga. Embora a Liga tivesse sido fundada após a criação da FIFA (1904), não havia qualquer filiação da primeira à segunda.

Francis Henry Walter foi nomeado primeiro presidente da entidade, e simultaneamente, era dirigente máximo do Fluminense e goleiro do clube, jogando cinco das dez partidas do torneio. Só faltava apitar.

Tente imaginar hoje, se Marco Polo del Nero fosse simultaneamente presidente da CBF, e presidente e jogador do Palmeiras. Se não fosse o obstáculo da idade, até poderia. Talvez a barreira fosse as viagens ao exterior, coma iminência de prisão.

O modelo de competição foi o de pontos corridos, com as seis equipes se enfrentando em turno e returno, atribuindo dois pontos por vitória e um por empate. O Fluminense vence nove jogos, perde um, faz 52 gols, leva seis, e se torna o primeiro campeão.

Na segundona, América e Riachuelo, acabam empatados em número de pontos, criando um entrave: o regulamento não previa critérios de desempate. Não havia a possibilidade de declarar os dois clubes campeões, já que era necessário apontar apenas um para disputar o jogo que valeria o acesso à divisão principal contra o Football Athletic, lanterninha da primeirona. Cavalheiramente, as duas direções decidiram por um jogo desempate, vencido pelo Riachuelo, que mais adiante, vence o Football Athletic, e garante a sua vaga na elite da Liga.

Atenção a essa ausência de critério de desempate: isso vai ar dor de cabeça mais adiante.

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Em 1907, a instituição, rebatizada de Liga Metropolitana de Sports Athleticos, promoveria a segunda edição do torneio, excluindo o Bangu, por acusações e práticas profissionalizantes (proibidas na época). O Rio Cricket se afasta voluntariamente da entidade, e o Riachuelo, mesmo conquistando a vaga legalmente, é impedido de atuar, sob alegação de incapacidade técnica. Assim, apenas Fluminense, Botafogo e Payssandu vão à segunda edição como remanescentes da primeira, acrescidos do novato Internacional. Todos os jogos aconteceram no field do Fluminense, já que o do Botafogo estava em construção, e os demais times não possuíam cancha para as disputas.

Botafogo e Fluminense despontavam como favoritos ao título quando o alvinegro enfrentaria o Internacional, que só compareceu ao jogo com cinco jogadores, dois a menos que o mínimo exigido pela regra. O Botafogo foi declarado vencedor, mas sem nenhum gol computado à classificação, e o Internacional foi excluído do campeonato por punição prevista em regulamento. O seu jogo seguinte, justo contra o Fluminense, foi cancelado, com a vitória deste por W.O., também sem acréscimo de gols à classificação.

Fluminense e Botafogo terminariam empatados em número de pontos, o que abriria um entrave na definição do campeão. Abriria.

Quatro dias antes da do início da competição, Fluminense, Payssandu e o inativo Rio Cricket aprovaram uma resolução, com voto contrário de Botafogo e Internacional, inserindo um adendo na forma de disputa, transformando o saldo de gols em critério de desempate. Qui ficam duas perguntas:

O regulamento de um torneio ou estatuto de uma entidade pode ser modificado sem a anuência de todos os participantes?

O Rio Cricket poderia ter decidido pela modificação do regulamento de uma competição da qual não participaria?

Com base na Segunda Divisão do ano anterior como precedente, o Botafogo evocou a nulidade da ata anterior ao torneio, e pedia o jogo extra. O Fluminense, com melhor saldo de gols (10x5), afirmava a validade da modificação.

Hoje, o caso poderia ser decidido pelo STJD, esse recanto de pavões que ao verem a lâmpada de uma geladeira acesa, já pensam se tratar de uma câmera ligada para exibir seus momentos de subcelebridades. Mas, na época, essa instituição não existia, e não se recorria à Justiça Comum para dirimir conflitos. De fato, a liga não proclamou ninguém campeão, já que foi dissolvida no mesmo ano para dar lugar à outra entidade que organizaria a competição do ano seguinte. Os brigões Fluminense e Botafogo levaram o Payssandu e o inativo Rio Cricket para a nova entidade.

O Fluminense se declara campeão, e o Botafogo também, embora não o faça enfaticamente. Na década seguinte, já na Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, o clube das Laranjeiras sinalizou um acordo de divisão de título para o rival, que recusou. Com aprovação da maioria dos membros da LMDT, a Taça Colombo, que  tinha grafada o nome dos campeões dos torneios até então, receberia o nome do Fluminense no espaço reservado á primeira competição.

Historicamente, aceitou-se o tricolor como o primeiro campeão carioca, embora o Botafogo nunca deixasse de reivindicar a honraria. Em 1943, Lamartine Babo compôs o hino do alvinegro com o início “Botafogo, Botafogo, campeão/ Desde 1910...”. É bom dizer que a composição de Lamartine não era a versão oficial do clube, embora tenha inegavelmente caído no gosto popular e entoada à exaustão nas arquibancadas.

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O caso esteve adormecido durante décadas, e caminhava para o esquecimento, quando por motivos não totalmente esclarecidos, o Fluminense solicitou junto à atual Federação do Rio de Janeiro a oficialização de seu título no ano contestado. Embora a LMDT apontasse o Fluminense como detentor do troféu, a FERJ aceita o pedido do clube. O invencível Jurídico do Tricolor, não aceitava que seu primeiro título viesse acompanhado de um asterisco, e compraria uma briga para apagar esse sinal gráfico de sua galeria.

Irritado, o Botafogo comprou a briga e foi á Justiça comum, iniciando uma briga que poderia ser infinita. Alegava que a Liga foi extinta antes que alguma decisão fosse tomada e que a LMDT não reconheceu o Fluminense como vencedor (apenas pôs o seu nome no troféu).

Em 1996, para dar fim à briga, outro mito dos bastidores, o Presidente da Federação, Eduardo Vianna (o Caixa D’Água), através de uma canetada, decide pela opção salomônica de dividir o título entre os dois brigões.

Pena que ninguém da época está vivo para a cerimônia de premiação.